Jogador do Amazonas FC é chamado de ‘índio’ durante transmissão

RG2, Cadu Santos e Ademir Quintino (Foto: Reprodução)

12 de maio de 2024

15:05

Ricardo Chaves – Da Revista Cenarium

MANAUS (AM) – O jornalista esportivo da rádio paulista Energia 97 FM, Ademir Quintino, fez um comentário pejorativo sobre o atacante carioca, Ênio, de 23 anos, ao se referir a ele como “índio” durante transmissão do jogo entre Amazonas FC e Santos, válido pela 4ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série B, realizado neste sábado, 11, na Arena da Amazônia, em Manaus.

O jogador foi o autor do único gol da partida que pôs fim à invencibilidade da equipe santista na competição. Após sofrer críticas, a emissora apagou o vídeo da transmissão da partida de suas plataformas oficiais.

“Rapaz, o Ênio foi costurando, fez a fileira do meio-campo, soltou uma bomba [para o gol] o índio Ênio”, disse o repórter que em seguida fez um som batendo com a mão na boca.

Logo após, o narrador Cadu Santos diz que o Amazonas FC já estava melhor na partida e com isso a equipe acabou abrindo “a contagem”, termo muito utilizado no futebol para se referir ao placar da partida. Diferente do colega, o comentarista Carlos de Jesus, conhecido como RG2, preferiu entrar na linha de Ademir Quintino e classificou como uma “flechada” o gol marcado pelo jogador. Ele ainda disse que a equipe amazonense seria tecnicamente inferior ao time paulista. 

Veja o vídeo da transmissão 
Índio ou Indígena?

Em reportagem no início do ano, a CENARIUM conversou com especialistas que esclareceram que o termo índio não considera as especificidades, por isso, usa-se o termo indígena. O próprio manual de redação do Senado Federal indica que indígena significa “originário, aquele que está ali antes dos outros” e valoriza a diversidade de cada povo. Para se referir ao dia 19 de abril, use Dia dos Povos Indígenas (com iniciais maiúsculas).

Para a escritora indígena e doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Márcia Kambeba, o termo “índio” carrega uma violência que remonta ao passado colonial do País, sendo considerado pejorativo.

“A palavra ‘índia’ carrega um peso muito grande de sangue, violência e invasões. Começa quando os colonizadores europeus chegaram aqui e achavam que tinham encontrado a ‘Índia’ [País asiático] e nos apelidaram de ‘índios’. Hoje, esse termo soa pejorativo na boca dos não indígenas”, disse Kambeba.

Em junho de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oficializou a mudança do nome do dia dos indígenas, passando de “Dia do Índio” para “Dia dos Povos Indígenas”. O pleito era uma demanda da causa indígena que apontava que a mudança era necessária para refletir as ideias e lutas das diversas sociedades indígenas.

Repercussão e críticas 

A equipe da rádio paulista foi duramente criticada na internet e por torcedores do Amazonas FC e do Santos FC. “Não, isso não é do futebol. Zoar é uma coisa, ser xenofóbico é outra”, disse a usuária do X (antigo Twitter) Leoneia.

Este outro usuário estava assistindo a partida na Arena da Amazônia e reagiu à fala do repórter paulista. “Sou santista e sou de Manaus. Estava no estádio ontem e por ser daqui não me faz menos torcedor do que você”, disse. 

O dono da conta @cnls pediu para Ademir Quintino reconhecer o erro e pedir desculpas. “Você foi preconceituoso e desrespeitoso. Não diga que é a intenção do programa. Admita que errou e siga o baile”, afirmou. 

Horas após a repercussão do caso, o repórter paulista publicou uma mensagem em suas contas nas redes sociais. Sem se referir a situação, ele publicou um pensamento do médium brasileiro Chico Xavier que trata sobre críticas.

Se as críticas dirigidas a você são verdadeiras, não reclame; se não são, não ligue para elas”, disse. 

O repórter esportivo usou as redes para publicar mensagem em referência a quem recebe críticas (Reprodução/Instragram)

Neste domingo, 12, logo após a emissora apagar o vídeo da transmissão, o repórter pediu desculpas por meio de uma publicação no X, dizendo que a “brincadeira” teria magoado os amazonenses. “Ontem, fui infeliz ao fazer uma brincadeira e não perceber que podia magoar pessoas do povo do Amazonas. Nada justifica o meu contrário [comentário] inoportuno, mas peço minhas sinceras sinceras desculpas por ter feito. Me policiar e melhorar como ser humano”, disse Ademir.

Discriminação, xenofobia e racismo

Para o sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio, o episódio protagonizado pelos jornalistas paulistas é reflexo da ignorância e da falta de preparo profissional na cobertura jornalística sobre a região. O caso, para o pesquisador, serve para repensar discursos preconceituosos, combater falas e ações discriminatórias. 

Para o sociólogo Luiz Antônio jornalistas mostraram despreparo profissional (Reprodução/Arquivo pessoal)

“Quando eles escolhem fazer esse tipo de comentário, eles estão sendo preconceituosos. Além de ser racismo cultural, pois retrata de forma pejorativa elementos presentes na estética e literatura. Eles revelam, nessa fala, a ignorância cognitiva e intelectual que não é capaz de falar nada do Amazonas e de Manaus”, aponta. 

Para o jornalista Pedro Tukano fala de profissionais que atuam na cobertura esportiva foi racista (Reprodução/Arquivo pessoal)

Já o jornalista e ativista indígena, Pedro Tukano, avalia que a atitude dos jornalistas foi racista. “Estamos falando de homens adultos em frente a uma câmera realizando comentários discriminatórios que menosprezam as pessoas indígenas”, disse.

Para ele, a fala dos jornalistas contribui para o racismo anti-indígena e para o imaginário da população brasileira que muitas vezes desconhece a questão indígena. 

“Podem até falar que é normal do programa e que seria a maneira como eles conduzem as coisas com humor. No entanto, não é o certo a ser feito, pois eles estão se referindo a pessoas que existem. O jogador tem um nome. Qual o nome dele? Quando eles fazem o gesto com a boca, eles estão se referindo a toda uma população de forma depreciativa”, avalia. 

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Editado por Aldizangela Brito