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+Ciência No AM, pesquisador cultiva PANC e promove autonomia alimentar para combater fome

Valdely Kinupp exibe o mangará, conhecido popularmente como "coração da banana). (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)
Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – Em um sítio na zona Leste de Manaus, um fragmento de terra de pelo menos três hectares, cerca de 30 mil metros quadrados, tem sido transformado em solo fértil para desenvolvimento de um método de autonomia alimentar conhecido como Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCS). No Sítio PANC, o doutor em Fitotecnia Valdely Kinupp trabalha diariamente para promover e também divulgar o potencial culinário de plantas que são subutilizadas ou negligenciadas na alimentação. Para ele, as PANCs são uma opção de combater a insegurança alimentar potencializada na pandemia.

Residindo em Manaus há 16 anos, o carioca se mudou para a capital amazonense a fim de fazer mestrado em Botânica no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Kinupp também é um dos autores do livro ‘Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas’.

Valdely Kinupp com o livro de sua autoria. (Ricardo Oliveira/CENARIUM)

Criado em uma família de agricultores e feirantes, ele sempre teve curiosidade e habilidade com plantas e animais, como cabras, porcos e coelhos. É essa experiência que Kinupp usa para cuidar do ‘sítio escola’, oferecendo cursos, serviços de consultoria alimentar, produtos agroecológicos, alimentos sem agrotóxicos, e abrindo as portas para visitas técnicas e hospedagens.

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À CENARIUM, o pesquisador lembrou que o estudo do uso dessas plantas, na alimentação, já ocorre há quase 20 anos, porém, foi apenas mais recentemente que o potencial culinário passou a ser explorado mais popularmente, aparecendo, até mesmo, em programas culinários na televisão.

“Em 2002, a gente já falava das plantas alimentícias ou comestíveis e, em 2003, começamos propriamente o trabalho. A ideia do meu trabalho, do meu livro, é mostrar que isso tem potencial culinário. Então, a partir do momento que está no livro, várias pessoas começam a busca; nós temos, por exemplo, a Bela Gil, que começou a fazer isso em um programa no GNT. Então, hoje, tem um monte de gente fazendo com plantas mais acessíveis”, explica Kinupp.

Cultivos

O pesquisador lembra que o acrônimo PANCS não contempla apenas as plantas e seus frutos, mas também as outras partes do vegetal e formas de preparo. Por isso, no ‘Sítio PANC’ é comum estar cercado pelas variadas plantas usadas, diariamente, no preparo dos alimentos. Algumas são destaques no cardápio de Valdely Kinupp, como o ariá, a banana e o cará-de-espinho. Do solo fértil, os frutos atingem pesos incomuns. “A batata pesou 151 quilos de uma planta, então onde você vai conseguir isso?”, pergunta, animado, o professor.

O ariá (calathea allouia), também conhecido como areiá e batatinha-ariá, por exemplo, é uma planta de folhagem densa e raízes tuberosas, como pequenas batatas, que podem ser consumidas como importante fonte proteica, pois possui altos níveis de aminoácidos essenciais em sua composição. “Ela é mais tradicional em Rio Preto da Eva (no interior do Amazonas), mas até lá as pessoas não levam a sério o cultivo. Tinha, num café regional, em Rio Preto da Eva, mas em pequena escala”, pontua.

Um dos funcionários do Sítio PANC, Ronald Charitaba, colhe ariás. (Ricardo Oliveira/ CENARIUM)

Com a ideia original de autonomia alimentar, o pesquisador ainda lembra que o objetivo é mostrar, para as pessoas, que é possível comer a banana madura, convencional, mas também fazer o uso da casca e do ‘coração da banana’, o mangará. “Além de ser supermedicinal, é uma planta alimentícia maravilhosa, de múltiplos usos. Com as flores possíveis (do mangará) é possível fazer conserva. Também é só cozinhá-las, deixá-las de molho, trocar a água duas vezes e comer como se fosse um camarão”, explica ele.

Em tempos de pandemia e consequente aumento da insegurança alimentar, desenvolver a autonomia alimentar por meio das PANCs pode se tornar uma opção acessível. “Atualmente, o que me motiva é a questão da autonomia alimentar. Hoje, com a pandemia, com a questão de insegurança política, sanitária, econômica, eu vejo que, mais do que nunca, estou no caminho certo de soberania, de autonomia”, afirma.

Geração de renda

A descoberta e promoção das centenas de possibilidades do uso das variadas PANCs podem, também, potencializar a geração de renda de pequenos empreendedores. O ‘Sítio PANC’ é um dos fornecedores do restaurante Caxiri, localizado no Centro de Manaus, e principal fornecedor da ‘Expedição Boto da Amazônia’, realizada por cientistas da Sea Shepherd Global, no Brasil, e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) no período de 1º de outubro até o dia 25 de outubro deste ano. “Outras tantas, como o ariá, pouca gente conhece, nem aqui no Amazonas, o que dirá fora daqui, mas tem um potencial imenso de gerar emprego, gerar renda, gerar alimento saudável”, pontua Kinupp.

A pesquisa se mistura com o pesquisador

Em 2004, Kinupp submeteu para a seleção de doutorado a temática sobre as PANCs, mas lembra que o termo usado ainda não era esse. O acrônimo foi ganhando ‘corpo’ durante o projeto. “Chegamos às Plantas Alimentícias, uma expressão que não era tão usual no Brasil. Depois da defesa (do projeto), em 2008, com a defesa da Irany (Arteche), chegamos ao acrônimo PANC que ninguém tinha usado, nem eu na minha tese”, explica.

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Além de pesquisador, Valdely Kinupp também é professor e fundador-curador do Herbário do Instituto Federal do Amazonas (Ifam). O interesse pelas PANCs surgiu a partir do gosto pela cozinha, por cozinhar “coisas diferentes” e da oportunidade de, com os alunos, cultivar plantas e criar receitas. Para ele, o mundo das Plantas Alimentícias Não Convencionais ainda é uma “bolha”, mas tem se tornado uma “bolha gigante”.