Por que os desastres climáticos afetam o Sul do País?

22 de maio de 2024

21:05

Lucas Ferrante – Especial para Revista Cenarium**

As cheias do Rio Grande do Sul têm levado a população, tanto gaúcha como do resto do Brasil, à reflexão sobre se existem culpados e quais medidas poderiam ser tomadas para evitar estes desastres climáticos. Desastres são eventos adversos, resultantes do crescimento social e do modelo de desenvolvimento, criando vulnerabilidades. Podem ser classificados como humanos, causados por ações ou omissões humanas; ou naturais, provocados por fenômenos naturais intensos, que por sua vez também podem ser intensificados pela ação humana.

Primeiramente temos que entender de onde se originam as chuvas da região. Ao observarmos as teleconexões atmosféricas, ou seja, padrões climáticos de larga escala na atmosfera, que conectam variáveis meteorológicas em diferentes regiões do planeta, identificamos um estacionamento nos ventos do hemisfério sul que carreiam as chuvas do Oceano Pacífico diretamente para a região sul do Brasil. Um segundo fator que contribui diretamente para o aumento das chuvas na região é a formação de uma célula de calor na região Centro-Oeste. Esta célula de calor desvia as chuvas trazidas pela região Amazônica, pelo fenômeno conhecido como “Rios Voadores”, que normalmente abastecem naturalmente as regiões Sul e Sudeste, direcionando-as apenas para a região Sul. A formação desta célula de calor é devida principalmente a conversão de áreas de floresta em agricultura, e está intrinsecamente ligada ao desmatamento no “arco do desmatamento amazônico” e no Cerrado.

O Cerrado, bioma predominante da região centro oeste, tem registrado um aumento expressivo e constante do desmatamento, demonstrando que as políticas anti-ambientais têm tido continuidade após o governo do ex-presidente Bolsonaro e tem se perpetuado também no governo do presidente Lula. De fato, estamos longe de termos um governo ambientalmente sustentável, pois algumas metas do governo Lula têm o potencial de agravar as mudanças climáticas. Entre essas metas estão a exploração de petróleo na região Amazônica, a pavimentação da rodovia BR-319, que liga o “arco do desmatamento” à Amazônia central, ainda preservada, e a construção da Ferrogrão, além de uma série de hidrelétricas na Amazônia. Estas hidrelétricas não são fontes limpas de energia, devido às grandes emissões de gases de efeito estufa provenientes de seus grandes reservatórios.

Chuvas alagaram cidades do Rio Grande do Sul (Reprodução/Diego Vara)

Os desastres no Rio Grande do Sul resultam de diversos fatores sob responsabilidade humana. Primeiramente, houve um desmonte da legislação ambiental do estado. O governador Eduardo Leite chegou a afirmar que o governo estadual ignorou estudos sobre mudanças climáticas, pois, segundo ele, o “governo vive de outras pautas”. O avanço do desmatamento e a supressão de áreas de vegetação, devido ao afrouxamento da legislação ambiental no Rio Grande do Sul, contribuem diretamente para a intensificação dos eventos climáticos extremos. De acordo com estimativas do Ministério Público estadual (MP-RS) e do MapBiomas, o Rio Grande do Sul tem hoje menos de 7% de área de Mata Atlântica preservada. Além de contribuir diretamente para as mudanças climáticas, o desmatamento torna o solo mais vulnerável, pois a vegetação não apenas fixa o solo, mas também ajuda na absorção da água. Isso contraria a pérola de sabedoria invertida proferida do Vereador Sandro Fantinel (PL), de Caxias do Sul–RS, que culpou as árvores pelos deslizamentos em encostas de estradas do estado e defendeu a derrubada das matas nas margens das estradas.

Se houvesse um prêmio para ideias infelizes, essa ganharia o troféu, porém as consequências, serão infelizes mesmo é para a população do Rio Grande do Sul se estes políticos forem mantidos em seus cargos. A falta de ação em mitigação local é um fato decisivo para potencializar eventos climáticos extremos, transformando-os em desastres climáticos. Contrariamente as falas do vereador, e respaldado pela ciência, árvores ajudam a fixar o solo e absorver água. Mesmo este sendo o raciocínio lógico e empírico de uma criança de pré-escola, políticos da região insistem em aprovar mais retrocessos ambientais.

Casa quase submersa pela cheia no Rio Grande do Sul (Reprodução/Ministério do Desenvolvimento Agrário)

Essas fragilizações da legislação ambiental se somam aos planos do governo federal para a Amazônia, como a exploração de petróleo, estradas e ferrovias. Essas ações têm o potencial de levar a Amazônia, que desempenha um papel crucial na regulação do clima da América do Sul, ao seu ponto de não retorno de degradação e desmatamento tolerados. A bancada ruralista também tem tentado aprovar um pacote de medidas que fragilizam ainda mais a legislação ambiental. Neste contexto, é fundamental que revejamos tanto as políticas anti-ambientais para os estados quanto os planos para a Amazônia, pois a atmosfera é fluida e as ações que vulnerabilizam a Amazônia e o clima global têm impacto direto no agravamento da crise no Rio Grande do Sul.
Lembre-se, se nada mudar, a probabilidade de você se tornar um refugiado climático é muito maior do que a de se tornar um bilionário.

(*) Lucas Ferrante é biólogo e pesquisador, mestre e doutor em Biologia e Ecologia. Possui estudos publicados sobre mudanças climáticas nos dois maiores periódicos científicos do mundo, as revistas Science e Nature.
(*) Este conteúdo é de responsabilidade do autor.
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