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Sociedade ‘Precisamos de intervenção imediata’, diz liderança Yanomami sobre indígenas afetados por surto de malária

Júnior Hekurari Yanomami afirma que a situação da saúde do povo Yanomami saiu do controle e está em colapso. (Reprodução)

Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanomami, disse na sexta-feira, 19, em entrevista exclusiva à REVISTA CENARIUM, que a Terra Indígena Yanomami, localizada nos Estados de Roraima e Amazonas, precisa de intervenção imediata dos poderes judicial e federal por conta de um surto de malária que vem afetando a saúde das populações tradicionais do local. Na última quarta-feira, 17, uma criança indígena de 3 anos morreu com sintomas da doença em uma comunidade da região.

“A situação do povo Yanomami fugiu ao controle. Precisamos das autoridades, da Justiça, do governo federal para intervir o Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Yanomami. Tem que intervir, porque as crianças estão indo [morrendo]”, relatou o líder indígena.

O que vem acontecendo com os indígenas é uma realidade já denunciada inúmeras vezes pela Hutukara Associação Yanomami e veio à tona, no último domingo, 14, após a exibição de uma reportagem do “Fantástico”, da TV Globo, relatando dezenas de indivíduos doentes, aldeias sem amparo e constatando as ameaças do garimpo à Terra Indígena, considerada a maior do Brasil com mais de 30 mil indígenas.

Veja também: STF fecha cerco e Bolsonaro tem cinco dias para explicar situação dos Yanomami

Na quarta, 17, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) explique, em até cinco dias, a situação dos Yanomami, esclarecendo questões relacionadas à nutrição dos povos, o acesso à água potável e a serviços de saúde e medicamentos fornecidos aos indígenas. Segundo a decisão, o governo Bolsonaro também deve informar quais foram as ações adotadas, o nome e o cargo das autoridades responsáveis.

Cenário caótico

À REVISTA CENARIUM, Júnior Yanomami afirmou que os indígenas vivem um cenário caótico e que estão desassistidos pelo poder público, mesmo que o território tenha recebido mais de R$ 190 milhões para assistência à saúde nos últimos dois anos. Segundo ele, além da desnutrição infantil, surto de malária e ação do garimpo ilegal, os indígenas sofrem com a falta de remédios e com a precariedade de unidades de saúde que funcionam na região.

Garimpo no Rio Uraricoera, na TI Yanomami. (Christian Braga/Greenpeace)

Somente em 2021, de acordo com o presidente do Considi-YY, a crise nas aldeias já matou 120 crianças. Por conta disso, uma equipe da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, está na Terra Yanomami elaborando um plano emergencial para conter o colapso das populações tradicionais.

“A saúde Yanomami está em colapso. O Dsei Yanomami está sem compromisso com a população. Eles sabiam desses problemas desde 2019, que vem piorando a saúde; [causando] malária, desnutrição e outras doenças. O povo Yanomami estava e está desassistido, porque o plano emergencial só vão colocar em dezembro. O povo Yanomami vai pagar muito caro”, desabafou o presidente do Considi-YY.

De acordo com o presidente do Considi-YY, a crise nas aldeias já matou 120 crianças em 2021. (Divulgação/ Condisi-YY)

De acordo com o líder indígena, a criança Yanomami que morreu com sintomas de malária na última quarta-feira, 17, também sofria com pneumonia. Júnior Hekurari afirma também que o menino estava em estado grave e teve o atendimento médico negligenciado pelo Distrito Sanitário Yanomami (Dsei-Y), órgão que responde à Sesai, pois não havia combustível suficiente para remover a criança da comunidade Xaruna, na Terra Indígena Yanomami.

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“Nós, o Condisi, avisamos a equipe do Dsei-Y às 11h05. Foram 6h para salvar uma criança”, destacou Júnior, lembrando que o helicóptero acionado pelo Dsei-Y chegou à comunidade somente às 17h da tarde do dia do 17 e a criança já tinha morrido.

Em três meses, esse é o terceiro caso de morte de crianças por malária na Terra Indígena Yanomami. A doença também vem afetando os adultos. Em 1º de outubro deste ano, um pajé da comunidade Makuxi Yano morreu aos 50 anos, após não ter recebido atendimento médico. Segundo Júnior Hekurari, quatro crianças estão internadas em estado grave em um hospital municipal de Boa Vista, em Roraima.

“O povo Yanomami está tomando água suja, estão adoecendo e não tem fiscalização do governo federal. A própria Funai não tem pernas para fiscalizar, muito menos o Ibama, que tem pouca atuação. Os garimpeiros estão espalhados por todo o território Yanomami, são mais de 2 ou 3 mil pontos de garimpeiros, de barracas, com, aproximadamente, 20 mil garimpeiros. São cerca de 60 a 80 voos por dia pousando na região. Eles estão saindo e entrando livremente”, lamentou o presidente do Condisi-YY.