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Meio Ambiente Raoni e Txai: duas gerações de luta pelos direitos dos povos indígenas e preservação das florestas

O líder indígena Raoni Metuktire (à esq.) e Txai Suruí (à dir.) (Arte: Catarine Hak/Cenarium)
Victória Sales – Da Revista Cenarium

MANAUS – A luta pelos direitos indígenas e, consequentemente, a preservação das florestas ultrapassa gerações e une duas figuras que carregam em si grande potência de representatividade: Raoni Metuktire, 89 anos, um símbolo da liderança em defesa da Amazônia, e a jovem ativista Txai Suruí, 24 anos, parte da crescente mobilização empreendida pelos indígenas no Brasil. Apesar de pertencerem a gerações distintas, ambos carregam mais uma semelhança: se tornaram alvos de ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Raoni é uma das principais lideranças em defesa dos povos indígenas. Aos 15 anos, passou a usar o Labret, um adorno de madeira nos lábios que representa os guerreiros e porta-vozes do povo. Em 1978, a história de Raoni chegou até Jean-Pierre Dutilleux, um diretor belga que produziu alguns documentários sobre a história do grande líder. O longa exibiu a luta pela Amazônia e a proteção dos povos indígenas para o mundo, e foi indicado ao Oscar.

Atualmente, ele vivo no Parque Nacional do Xingu e ficou conhecido internacionalmente com a ajuda do cantor Sting, que realizou uma caravana em 17 países pedindo ajuda para causas contra o desmatamento, em 1980. Em 2019, o líder voltou a se reunir com governantes e autoridades internacionais, como o Papa Francisco.

Após ataque do presidente de Jair Bolsonaro no discurso de abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2020, Raoni afirmou à imprensa que seu pensamento é pela preservação e garantia dos direitos dos povos indígenas. “O Bolsonaro falou que eu não sou uma liderança, mas ele é que não é uma liderança e tem que sair. Antes que algo de muito ruim aconteça, ele tem que sair, para o bem de todos”, defendeu.

Cacique Raoni no Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene em homenagem ao povo indígena (Geraldo Magela/Agência Senado)

Predestinada

Quanto Txai tinha apenas seis anos de idade, seu pai, o líder indígena Almir Suruí a colocou em um tronco de uma árvore e anunciou que ela seguiria seus passos. Após dezoito anos, a indígena tem conquistado grande destaque internacional a partir de seu discurso na abertura da COP26. Da aldeia Lapetänha, na Terra Indígena (TI) 7 de Setembro, que abrange Rondônia e Mato Grosso, Txai Suruí foi a única indígena da América Latina, e a única brasileira, a discursar na abertura da COP26.

Filha de duas lideranças indígenas mais conhecidas no País, o cacique Almir e Neidinha Suruí, Txai desde cedo aprendeu a importância em proteger e defender o território desses povos. A jovem cresceu vendo os pais sendo ameaçados de morte por garimpeiros ilegais que invadem as terras indígenas. “Os líderes precisam saber que o que estamos vivendo na Amazônia também é responsabilidade deles”, destacou ela na COP26.

Leia mais: Postura de Txai Suruí, criticada por Bolsonaro, reflete despertar da juventude para ativismo

A ativista indígena Txai Suruí (Reprodução/Instagram)

Ataques

Em 2012, Txai e família precisaram ser escoltados pela Força Nacional, após receberem ameaças de garimpeiros. “Ela dizia que preferia morrer que viver o tempo todo com a polícia ao lado, pois aquilo não era liberdade e não era justo viver daquele jeito por defender o território”, relembrou Neidinha ao Correio Braziliense.

Neste ano, o cacique Almir Suruí foi um dos alvos de inquérito da Polícia Federal, depois de criticar o governo federal. O líder foi intimado a prestar depoimento por crime de difamação supostamente praticado contra a Fundação Nacional do Índio (Funai).

“Eu me sinto muito honrada e com muita responsabilidade de carregar tudo isso. De você representar e levar a voz do seu povo para o mundo, que é isso que eu estou tentando fazer. Eu tinha que estar aqui, fazendo o que eu estou fazendo, falando o que eu estou falando. Porque isso precisa ser feito, precisa ser ouvido e precisa ser falado”, destaca Txai em um vídeo ao Mídia Ninja sobre a participação na COP26.

Txai é estudante de Direito e atua no núcleo jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental da comunidade Kanindé, em Roraima. Em 2021, ela criou o Movimento de Juventude Indígena de Rondônia com mais de 1,7 mil jovens. Txai tem como uma das suas grandes referências os grupo de rap Racionais MCs.(Mídia Ninja)

Na COP26

Assim como Raoni, Txai também tem se tornado alvo de ataques diretos do governo federal. Na quarta-feira, 3, no lugar de participar da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), o presidente da República preferiu fazer duras críticas à jovem militante indígena, que discursou na abertura do evento, em Glasgow, na Escócia.

Segundo Bolsonaro, Txai foi à COP26 para substituir Raoni e, também, para atacar o Brasil. “Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma ‘índia’ para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Alemanha?”, questionou.

Nas redes sociais, Txai explica que não se pode fechar os olhos para a realidade. “Qualquer pessoa alfabetizada viu que eu não critiquei o Brasil, mas não podemos fechar os olhos para a realidade. Só alcançaremos as soluções quando reconhecermos onde estamos errando”, concluiu.

Ativista indígena, Txai Suruí (Reprodução/Instagram)