Raoni encontra Papa Francisco no Vaticano e entrega carta pedindo apoio

16 de maio de 2024

21:05

Davi Vittorazzi — Da Revista Cenarium

CUIABÁ (MT) — Líder indígena do povo Kayapó, o Cacique Raoni Metuktire encontrou na manhã desta quinta-feira, 16, o Papa Francisco, chefe da Igreja Católica, no Vaticano. Raoni entregou uma carta ao religioso contando sobre as vulnerabilidade que os povos indígenas enfrentam e sobre a tragédia climática no Rio Grande do Sul.

O Cacique esteve no Vaticano para o evento “Da crise climática à resiliência climática”, a convite do próprio Papa. O líder indígena também encontrou Regina McCarthy, especialista americana em qualidade do ar, que atuou como primeira conselheira climática da Casa Branca, de 2021 a 2022, além de Roberto Gualtieri, prefeito de Roma, e Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo, que foram palestrantes no evento.

Na carta entregue ao Papa, Raoni pede apoio da Igreja Católica na luta contra aos ataques aos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente. O líder Kayapó vive no Parque Indígena do Xingu, no município de São José do Xingu, em Mato Grosso.

Um paradoxo caracteriza a situação dos povos indígenas: de um lado, somos os mais imediatamente vulneráveis aos impactos de mudanças climáticas e da perda de biodiversidade. Do outro, aumenta expressivamente nossa responsabilidade pela conservação e recuperação de bens essenciais para o bem-estar de toda a Humanidade, assim como a expectativa para que desempenhemos referido papel“, destacou o líder indígena (veja na íntegra mais abaixo).

A carta ainda afirma que o Congresso brasileiro “tem desafiado até os julgamentos do Supremo Tribunal Federal”, mencionando especificamente o conflito relacionado ao marco temporal. Essa legislação foi sancionada no ano passado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em resposta à decisão do STF que considerou a tese inconstitucional.

Encontro ocorreu durante evento sobre as mudanças climáticas, na sede da Igreja Católica (Reprodução/Vaticano)

O evento sobre o clima teve início na terça-feira, 15, na Casina Pio IV, no Vaticano, se se encerra nesta sexta-feira, 17. Neste último dia, Raoni vai palestrar ao público, de cerca de 200 pessoas de diversas partes do mundo, sobre sua trajetória de vida em defesa da Amazônia e dos povos indígenas.

Leia a carta na íntegra

“Sua Santidade,

ao longo de seu Pontificado, a Igreja Católica se manifestou com explícitas força e clareza sobre a crise ambiental e o papel dos povos indígenas, em documentos como os da Encíclica Laudato Sí e da Pastoral da Amazônia.

Nos últimos meses, o Brasil viveu duas catástrofes climáticas sem precedentes: antes, a inédita seca que assolou o Norte do País, agora as trágicas enchentes que vitimaram a população do Sul.

Um paradoxo caracteriza a situação dos povos indígenas: de um lado, somos os mais imediatamente vulneráveis aos impactos de mudanças climáticas e da perda de biodiversidade. Do outro, aumenta expressivamente nossa responsabilidade pela conservação e recuperação de bens essenciais para o bem-estar de toda a Humanidade, assim como a expectativa para que desempenhemos referido papel.

No âmbito internacional, ao mesmo tempo em que fica claro nosso papel de gestores de enormes recursos ambientais, os programas que visam abordar a mitigação e a adaptação em relação à crise global têm chegado de forma inexpressiva aos territórios que gerenciamos e manejamos. E muitas vezes nem somos ouvidos sobre o que é necessário para viabilizar o que se espera de nós.

Já dentro do Brasil, também de forma paradoxal, estamos assistindo a uma ostensiva tentativa de reverter nossos direitos garantidos pela Constituição. O atual Congresso tem desafiado até os julgamentos do Supremo Tribunal Federal, no caso do chamado Marco Temporal e de outras normas que buscam impedir que o próprio governo possa executar suas obrigações para o cumprimento da Constituição.

Essa ofensiva explícita e sem precedentes contra os povos indígenas encoraja também invasores que geram prejuízos irreversíveis, tais como é o caso do garimpo ilegal de ouro e outros minerais, que envenena nossos rios e nossa comida. Vossa Santidade já manifestou preocupação – ao receber recentemente o cacique Davi Yanomami – sobre as nefastas consequências dessa prática.

É por isso que –na oportunidade da Cúpula do Clima das Pontifícias Academias de Ciências e de Ciências Sociais– viemos para rogar que Vossa Santidade continue nos ajudando, ao fazer com que a palavra da Igreja Católica, o chamado da Encíclica Laudato Sí e da Pastoral da Amazônia, cheguem aos membros de nosso Congresso que aparentemente não receberam ou compreenderam devidamente, até hoje, tal solene e alertadora mensagem.

Em nome dos nossos povos –que habitam e preservam territórios de centenas de milhares de quilômetros quadrados nos estados de Roraima, Amazonas, Rondônia, Pará e Mato Grosso– assim como de todos os parentes dos povos indígenas do Brasil e da bacia amazônica, gostaríamos de saudar e cumprimentar Vossa Santidade, ao transmitir-lhe votos de força e confiança.

Cacique Raoni Metuktire, povo Kayapó (região do Xingu, Amazônia Sul-oriental)

Cacique Almir Narayamoga Suruí (Amazônia Ocidental)

Maurício Ye’kwana, diretor da Associação Hutukara, dos povos Yanomami e Ye’kwana (Norte da Amazônia)”

Editado por Aldizangela Brito
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