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Diversidade Umbanda: 113 anos de lutas, evolução e resistência

Muito confundida com o Candomblé, a doutrina incorpora elementos do catolicismo, do espiritismo, além de rituais de povos indígenas, entre outras referências. (Associação Cultural Toy Badé/ Reprodução)

Iury Lima – Da Revista Cenarium

VILHENA (RO) – Práticas mediúnicas, rituais espíritas, evolução e transformação pessoal fazem parte do legado de uma das religiões mais coloridas e encantadoras, cheia de tradição e cultura, porém figurante, na mesma medida, entre as mais demonizadas por outros credos sagrados, no Brasil. Ao longo dos seus 113 de criação, a vertente mais popularizada da Umbanda ainda é vista com intolerância e preconceito, mesmo tendo entre seus pilares valores como a fraternidade, caridade e respeito ao próximo. Criada pelo médium Zélio Fernandino Moraes, sob a orientação do espírito de Caboclo das Sete Encruzilhadas, a Umbanda surgiu em Niterói, no Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1908. 

Confundida com o Candomblé, a doutrina incorpora elementos do catolicismo, ao enaltecer e rogar aos santos; ao espiritismo, por acreditar na evolução e na sobrevivência do espírito humano, além de rituais de povos indígenas, entre outras referências. Os cultos, realizados nos tradicionais terreiros, que resistem aos ataques preconceituosos de norte a sul do território nacional, são regados a cânticos entoados por homens e mulheres, contando com a presença de guias espirituais (entidades), tais como os caboclos, pombagiras e exus – nomenclaturas comumente utilizadas por doutrinas distintas e de maneira equivocada para referenciar termos pejorativos.

Manifestações da Sacralidade/Religiosidade Afro-brasileira, no Festival Afroamazônico de Yemanjá, em Manaus. (Associação Cultural Toy Badé/Reprodução)

Adaptações e popularização

“Antes de Zélio Moares ter tido essa iniciativa, a Umbanda já existia como um grupo étnico do tronco Banto [ramo linguístico que deu origem a diversas línguas africanas], trazido para o Brasil por meio da escravidão (…) Quando a gente fala de Umbanda, a gente não fala só de uma só Umbanda. E no que pese a gente respeitar esse marco histórico de 1908, também é necessário que a gente tenha presente que ela não começou aí. As raízes delas vêm da África e da pajelança indígena que vão se misturar. O que Zélio fez foi trazer a fusão, a mistura com espiritismo kardecista”, explicou o coordenador-geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (Aratrama), Alberto Jorge Silva Ọba Méjì, conhecido como Pai Jorge, em entrevista à CENARIUM

Ele destaca que Zélio teve a capacidade de apresentar a proposta de transformação para uma Umbanda “mais evangelizada”, em parte por causa da perseguição sofrida pelos ritos. “Então, se a gente fizesse uma pirâmide de cabeça para baixo, uma grande parcela dela é kardecista, uma segunda parte católica romana, a terceira parte é a pajelança e, na menor parte, lá embaixo, estaria a sacralidade afro”, detalhou.

O coordenador-geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana, “Pai Jorge”. (Acervo pessoal/ Pai Jorge)

Perseguição

“Com a ditadura Vargas, com a perseguição dos terreiros que se teve, houve uma necessidade de uma organização em federações e associações para poder conseguir licença de funcionamento. É onde a Umbanda de Zélio Moraes começa a ter maior força, maior amplitude, porque tinham pessoas muito cultas, militares, médicos e tudo mais que, digamos assim, gostavam do kardecismo, mas não se enquadravam exatamente nos princípios kardecistas. Tinham essa influência do caboclo, do preto velho, do Exu e aí essas organizações e federações começaram a existir em várias partes do Brasil, principalmente durante a ditadura militar. As casas que eram antes Tambor de Mina, que se identificavam por conta da identidade maranhense, principalmente aqui no Amazonas, Pará, Acre e Rondônia, passaram a ter o nome de Tenda Espírita de Umbanda, mas continuam tocando o tambor ou fazendo o Catimbó”, complementou Pai Jorge.

Alberto Jorge, que, por pouco, não foi ordenado padre, após 10 anos de formação hebraico-cristã por meio de estudos teológicos, voltados também para a filosofia e à sociologia, diz que o conhecimento de toda a gama de visões de mundo e de realidades que a Umbanda lhe proporcionou lhe abriu a mente para a pluralidade religiosa, o que o fez abandonar a crença em um único “Deus, dono absoluto de todas as verdades e o pensamento que fora da igreja não há salvação”.

“Para mantermos contato com Deus, nós não precisamos, exatamente, estarmos institucionalmente ligados à Santa Madre, à Igreja Católica Apostólica Romana e Ortodoxa, ou à Igreja Luterana, por exemplo (…) o amor de Deus é muito mais abrangente, nos ouve, nos atende e nos acolhe dentro das nossas limitações e dentro das nossas condições”, pontuou.

Atual governo alimenta demonização

De acordo com uma pesquisa do Instituto Datafolha, realizada em 2020, a Umbanda, o Candomblé e outras religiões de matrizes africanas representam apenas 2% da população. Índice pequeno, mas expressivo em números absolutos: são quase 500 mil de 212 milhões de habitantes (IBGE/2020). Católicos e evangélicos são 50% e 31% dos brasileiros, respectivamente. Os espíritas são 3% da Nação;  2% são de outras religiões não especificadas; 0,3% seguem o judaísmo; 10% não têm religião alguma e 1% são ateus.

Não por acaso, abre-se grande margem para a desinformação e para a intolerância religiosa, sendo as religiões afro-descendentes as mais afetadas pelo crime. Em todo o ano de 2020, 245 denúncias foram feitas relatando episódios de ataques, violência e preconceito contra quem segue tais credos sagrados. Em 2018, o número foi menor: 211 registros. 

“A demonização é um processo altamente perverso. As denominações cristãs, neopentecostais precisam ter um demônio, precisam ter um inimigo para combater. Sem ter um culpado para as falhas e erros da humanidade, não é possível faturar os milhões e os bilhões que faturam. O ser humano tem uma capacidade muito grande de atribuir aos outros a culpa por tudo aquilo que ele faz, que pratica. Todo mundo é culpado, menos aquele que praticou”, lamenta o coordenador da Aratrama, Alberto Jorge.

“As guerras religiosas sempre estiveram nos interesses de Estado. O que hoje o Brasil vive é uma guerra declarada de fundo religioso e, Bolsonaro na presidência da República, é o expoente dessa guerra religiosa, desse confronto absurdo entre ideologias que tem como base, o que eu entendo por ‘Deus como religião’. E isso está, cada vez mais, entranhado dentro da sociedade”, completou a liderança. 

Pai Jorge denuncia o que classifica como uma “tremenda bandidagem”: o posicionamento preconceituoso da pasta estadual amazonense que mais deveria intervir pela pluralidade e respeito – a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). “No Conselho Estadual da Igualdade Estadual, a secretária Mirtes Sales fez de tudo para colocar a representante do Movimento Pardo-Mestiço, que é bolsonarista e altamente ligada à Damares Alves (ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) e, que é contra o povo de terreiro, que já manifestou ‘n’ vezes isso, que já fez determinadas declarações racistas com relação ao povo negro e que nega a identidade afro”, afirmou.

“A jogada foi tão perversa que ela foi eleita presidente de um conselho, sendo que esta eleição se deu na ausência de 50% + 1 do colegiado, porque a Mirtes Sales sabia que ela não conseguiria ser eleita pelos participantes do conselho e precisava fazer essa armação lá em Brasília, junto ao Conselho Nacional da Igualdade Racial”, acrescentou. “E isso nós já denunciamos ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público Estadual”, acrescentou.

Alberto Jorge exemplifica tal episódio “cruel e criminoso” como amostra da guerra religiosa, partindo de que “uma secretária de Estado passou por cima do bom-senso para eleger o que lhe era conveniente do ponto de vista político-partidário”.

Resistência

Mãe Lilian de Odé, do Amazonas, que também conversou com a reportagem da CENARIUM neste Dia Nacional da Umbanda, diz que “praticar hoje em dia é, com toda a certeza, muito diferente de como era logo quando a Umbanda surgiu”, mas que ainda há dificuldades, visto que, historicamente, a religião sempre esteve muito cercada de preconceito e perseguição.

“Nós, aqui do Norte, nem sofremos tanto, mas o pessoal lá do Sudeste, do Sul, sofrem até hoje. Você ainda vê terreiros sendo invadidos, queimados, médiuns sendo perseguidos. No Rio de Janeiro, em determinados lugares, os médiuns não podem lavar suas roupas e estender, porque é proibido (…) Enfim, ainda hoje é muito difícil”.

Para ela, a quebra do preconceito depende muito mais dos próprios umbandistas. “Infelizmente, nós ainda temos muitos se dizendo umbandistas e praticando qualquer coisa menos a Umbanda”, avaliou. “Ser umbandista é, realmente, pertencer ao labor sagrado, que é de muito sacrifício, de muita dedicação, de muita renúncia (…) e nem todos querem renunciar”, declarou Mãe Lilian.

Mãe Lilian de Odé, filha de médium, nasceu e cresceu em terreiro de Umbanda. (Acervo pessoal/Reprodução)

“Quem demoniza o sagrado, quem perverte o sagrado, é humano. Com seu egoísmo e com a sua cegueira. Então, você vê os exus e pombagiras sendo demonizados como se fossem guias quaisquer. E na Umbanda sagrada, um exu e uma pombagira são guias de luz. E, para ser um exu ou uma pombagira, é preciso que aquela entidade tenha alcançado um grau de iluminação e trabalhe para muitas pessoas. Eles, por serem mais próximos dessa energia mundana, são exímios conhecedores das mazelas humanas e são os executores da Lei de Ogum na Terra”, esclareceu.

“Exus e pombagiras trabalham na energia que nos envolve. A pombagira é aquela força que decanta em nós a tristeza e transforma isso em alegria, elas chegam sorrindo e vão quebrando aqueles miasmas e padrões energéticos pesados de tristeza nas pessoas. Exus, por sua vez, são aqueles que abrem caminho, que protegem, não do mundo, mas protegem a pessoa dela mesma, porque ela é que tem Deus e o demônio dentro dela. Demônio não é o Exu nem a Pombagira, é a pessoa que vai ao terreiro mal-intencionada. Quem serve a Deus não faz mal a ninguém. A demonização é humana, ela não é do divino”, segundo Mãe Lilian.

Caboclo Sete Flechas abrindo uma gira de catimbó, em um terreiro de Manaus. (Acervo pessoal de Mãe Lilian de Odé/Reprodução)

Proteção e filosofia de vida

Para Lilian, que nasceu e cresceu dentro do terreiro, filha de mãe com habilidades mediúnicas desde os sete anos de idade, é preciso proteger os terreiros e as casas que praticam a religião. “Não acho que os umbandistas devam se acuar, muito pelo contrário, essa é a hora de vestir a camisa da Umbanda”.

“Umbanda é o caminho. A filosofia de vida é a forma como você caminha. Para chegar lá, você precisa usar todo o conhecimento que você receber, trazer isso para a sua vida, para sua filosofia de vida, para que você encontre a sua evolução. É preciso ter dentro de si para que possa compartilhar. Para aqueles que têm a Umbanda como filosofia de vida, a têm, com certeza, como religião. Ela termina sendo as duas coisas”, finalizou.