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Meio Ambiente ‘Querem transformar em mercado aquilo que para gente é sagrado’, diz indígena Munduruku sobre garimpo ilegal

Sobrevoo registra áreas de garimpos ilegais dentro da Terra Indígena Munduruku, no Pará, em setembro de 2019 (Greenpeace)

Victória Sales – Da Revista Cenarium

MANAUS – Um seminário realizado nesta sexta-feira, 12, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), trouxe um debate sobre os “Impactos do garimpo ilegal de ouro na Amazônia: efeitos na saúde e no bem-viver do povo indígena Munduruku”. De acordo com a ativista indígena, Alessandra Korap, do povo Munduruku, o governo federal, por meio de leis, quer regularizar a mineração em TI. “Querem transformar em mercado aquilo que para gente é sagrado: nossos rios e nossas florestas”, destacou.

Um levantamento do Instituto Socioambiental (ISA), divulgado em junho deste ano, mostrou que em dois anos e meio, o garimpo ilegal devastou mais de 2.260 hectares de Terras Indígenas (TI) Munduruku, localizada entre os Estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso. A pesquisa foi realizada entre os meses de janeiro de 2019 e maio de 2021.

Garimpo ilegal em terras Munduruku. (Vinicius Mendonça/ Ibama)

Como um pedido de socorro, Alessandra conta que se acabarem com o rio, acaba com todo povo Munduruku, seja aquele em forma de gente ou seja em forma de animais. “Nossa terra é alvo de interesses gananciosos dos Pariwat*, pois nela há muitos minérios, ouro e diamante, coisas que para a gente não tem valor, e para eles é motivo de tirar o sangue indígena. Nossas vidas e nossa floresta parecem valer menos diante da ganância deles”, relatou.

A ativista afirma também que o garimpo é uma das grandes ameaças do rio Tapajós e do povo Munduruku. “Nós sabemos o quão mal pode fazer o mercúrio em nosso corpo, pois ele vai para a água e entra na nossa cadeia alimentar. Já ficamos sabendo que na região pessoas estão com níveis elevados de mercúrio, e queremos muito que isso seja investigado com profundidade. Não é apenas nosso rio que está sofrendo com isso”, declarou.

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Impactos

As terras Munduruku são reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e que deveria ser preservado, garantido a segurança e o modo de vida desses indígenas. Mas, com as constantes ameaças e invasões de terras causadas pelo garimpo, essa garantia está cada vez mais longe de se obter. De acordo com a antropóloga Luísa Molina, que estuda os impactos da degradação socioambiental causada pelo garimpo no Tapajós, apontou ainda que o desmatamento aumentou muito na região do Alto Tapajós. “A terra indígena dos Munduruku esteve no ano de 2020 entre as áreas mais desmatadas do País. E sabemos que lá no alto do Tapajós não tem outra atividade expressiva que possa ter provocado um desmatamento como esse a não ser o garimpo ilegal dentro dos territórios tradicionais”, ressalta ao site WWF.

Segundo um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais e o Ministério Público Federal (MPF), 28% da produção nacional de ouro tem alguma evidência de irregularidades. No entorno do território Munduruku, o Pará é líder em irregularidades. Com mais de cinco toneladas de ouro de origem ilegal, o Estado produziu quase 18% desse produto, somente no município de Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso, onde estão as Terras Indígenas Munduruku e Kayapó.

(Reprodução/InfoAmazônia)

(*) Pariwat – nome dado para se referir aos não-indígenas pelos Munduruku