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Diversidade ‘É uma resistência’, diz estilista indígena ao celebrar 1º ano na indústria da moda

Para o estilista amazonense Sioduhi, ter marca de roupa com o nome dele é sinônimo de resistência (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)
Bruno Pacheco – Da Revista Cenarium

MANAUS – Fundador e criativo da marca Sioduhi Studio, o amazonense Sioduhi, de 25 anos, completou nessa segunda-feira, 1º, um ano como estilista. Nascido na comunidade Mariwá, no Território Indígena do Alto Rio Negro, região do município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), o jovem que mudou para São Paulo há cerca de três anos para realizar o sonho de atuar na indústria da moda, afirma que ter uma marca com nome indígena é uma forma de resistência.

“É um ano como estilista Sioduhi e da primeira coleção cápsula chamada ‘Dabucurí’. Nesse período, também houve, em meados de setembro de 2021, a mudança de nome da marca Piratapuya para Sioduhi, na qual eu trago meu nome que, por muito tempo, tive vergonha por conta do medo do que as pessoas pudessem falar. No final de tudo, é uma forma de resistência falar que eu tenho minha identidade e dizer que durante duas décadas tive vergonha disso”, comentou Sioduhi, em entrevista à CENARIUM.

Para o estilista, pertencente do povo Waíkahana (Piratapuya) e fluente na língua Tukana e portuguesa, durante muito tempo os indígenas foram obrigados a aderir a nomes de integração na sociedade, um processo histórico que leva os povos tradicionais a alterar os nomes originários para serem integrados com mais facilidade à cultura branca.

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Sioduhi visitou a REVISTA CENARIUM nessa segunda-feira, 1º (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

“Muitos de nós fomos obrigados, de certa forma, a aderir o nome de integração, como o meu, por exemplo, que é João Paulino. Quando mudo a marca para Sioduhi Studio eu deixo esse passado para trás e, hoje, coloco o meu nome enfatizando, inclusive, que existe um significado: Sioduhi representa espírito ancestral de um ‘baiá’, que é o cantor das cerimônias sagradas; e o Studio é o espaço onde estão as minhas criações e um lugar onde a gente começa a se conectar entre indígenas e não indígenas, porque é uma marca agênero, que abraça todas as causas e essa acepção é uma cosmovisão dos indígenas de se viver em coletividade”, pontuou o estilista amazonense.

Trajetória

Filho de mãe Dessana e pai Piratapuya, Sioduhi morou em comunidade indígena até os 12 anos de idade, quando fez êxodo devido à necessidade de ter acesso à educação. No fundo, afirma o estilista, sempre soube que este era o caminho certo a ser seguido. Na adolescência, o amazonense estudou Administração no Centro Universitário do Norte (UniNorte) e Técnico em Administração pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam).

Sioduhi afirma que atuar com moda era uma vontade desde criança (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Sioduhi se mudou para São Paulo, onde estudou modelagem de vestuário na Escola Técnica do Estado (ETEC Tiquatira) e MBA em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Nas redes sociais, o estilista contou que, desde criança, sentia que queria atuar com moda, principalmente por ver sua tia Regina Soares, do povo Taliaserí (Tariano), costurando peças para formatura, debutante, batizado, casamento dos parentes. Esse sonho era partilhado com o amigo de infância Charles Maia Yanomami, que incentivava Sioduhi.

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No entanto, o estilista destaca que, por ter nascido numa realidade machista catequizada, sempre teve medo de arriscar e de ser julgado. Em fevereiro de 2020, contudo, quando Charles Yanomami morreu, Sioduhi decidiu que era a hora de realizar o projeto de lançar a própria marca de roupa e começou a planejar, a partir de meados de abril, o lançamento da marca, que se tornou realidade no dia 1º de novembro de 2020.

“A moda foi uma das ferramentas que eu escolhi para poder me expressar e também falar da Amazônia, do Alto Rio Negro, onde constantemente estarei ligado com esse território por meio das minhas criações. Por mais que eu fale do Alto Rio Negro, do Pindorama, que é o Brasil, da Abya Yala, que é a América Latina, vou sempre estar conectado com minhas raízes que é essa região que tem essa grande diversidade de povos”, concluiu Sioduhi.

O estilista indígena vive rápido crescimento no mundo da moda (Ricardo Oliveira/Revista Cenarium)

Com o lançamento da marca, o crescimento da Sioduhi Studio tem sido instantâneo desde então. Ao todo, a o estilista possui três coleções: “Dabucurí”, lançada em novembro de 2020, e a “Weá Terra Fértil” e “Pamɨri 23”, lançadas em setembro deste ano.

A coleção “Weá Terra Fértil” foi produzida em parceria com a estilista indígena Dayana Molina, do Coletivo Indígenas Moda BR, para uma campanha da rede americana de televisão paga National Geographic em homenagem ao Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, que buscou retratar as mudanças climáticas na Amazônia e alertar sobre a situação de desmatamento, que vem devastando a região.

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Em setembro deste ano, Sioduhi participou pela primeira vez em uma das edições do Brasil Eco Fashion Week 2021, sendo o único amazonense presente no evento, considerado um dos mais importantes da moda no Brasil e no mundo. Na ocasião, o indígena lançou a coleção Pamɨri 23 que fala da resistência milenar dos 23 povos indígenas do Alto Rio Negro.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Sioduhi ou encomendar roupas e coleções elaboradas por ele, basta acessar o site da Sioduhi Studio no link ou acompanhar nas redes sociais. Em Manaus, as vestimentas da marca também estarão, em breve, disponíveis para compra na Galeria Amazônica, no Centro da cidade.