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Meio Ambiente Indígenas ganham espaço na COP26 enquanto garimpo ilegal avança e mata isolados no Brasil

A grande maloca do povo Moxihatëtëa foi avistada durante um sobrevoo dos servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai). (Reprodução/ Funai)
Marcela Leiros – Da Revista Cenarium

MANAUS – Os povos originários continuam sendo vítimas do avanço do garimpo ilegal no Brasil, mesmo que tenham conquistado mais espaço e visibilidade em conferências mundiais, como a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), que acontece em Glasgow, na Escócia. Nessa terça-feira, 2, a Hutukara Associação Yanomami (HAY) denunciou, a órgãos competentes no País, a morte de dois indígenas Moxihatëtëma, isolados voluntariamente, na região do alto rio Apiaú, em Mucajaí, Sul de Roraima.

No documento, direcionado à Fundação Nacional do Índio (Funai), Polícia Federal (PF) de Roraima, 1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º BIS) e Ministério Público Federal (MPF) no Estado, a HAY conta que há, aproximadamente, dois meses, os Moxihatëtëma se aproximaram do garimpo “Faixa Preta”, com a intenção de expulsar os invasores do seu território. Os grupos entraram em confronto e os isolados atingiram três garimpeiros com flechas, porém, os garimpeiros mataram dois Moxihatëtëma com armas de fogo.

Os Moxihatëtëma vivem dentro da Terra Indígena Yanomami, na região do extremo Norte de Roraima, na fronteira com a Venezuela, na Amazônia brasileira. Em um vídeo, o vice-presidente da HAY, Dário Kopenawa, classifica como “muito preocupante” o ocorrido no rio Apiaú. Ele reforça o pedido para que o caso seja investigado pelos órgãos responsáveis.

“A Hutukara Associação Yanomami recebeu informação muito preocupante, muito triste, de que os nossos parentes isolados Moxihatëtëma foram assassinados por garimpeiros ilegais. Nós fizemos uma carta pedindo às autoridades brasileiras, como MPF, Funai e Polícia Federal, para que faça a apuração imediatamente”, pediu.

O documento pontua ainda a preocupação diante de novos conflitos, em razão do “sistema tradicional de justiça da cultura Yanomami”. Assim, é possível que os Moxihatëtëma organizem novas investidas contra os núcleos garimpeiros para compensar as mortes sofridas, o que podem resultar em mais mortes e chacinas.

Localização da casa-coletiva dos isolados Moxihatëtëma e áreas de garimpo na
proximidade. (Reprodução/HAY)

A CENARIUM questionou a Funai, MPF e Polícia Federal sobre quais medidas serão tomadas referente às mortes dos Moxihatëtëma e ao iminente conflito entre os isolados e os garimpeiros, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Assista ao vídeo:

O vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Dário Kopenawa. (Divulgação)

COP26

Em eventos internacionais, os indígenas do Brasil têm sido referência em discussões e debates sobre a preservação do meio ambiente e dos direitos dos povos originários. Em discurso feito na abertura da COP26, a ativista indígena de Rondônia Txai Suruí, de 24 anos, cobrou, dos países, ações rápidas e concretas voltadas para a proteção dos povos indígenas e das florestas.

“A Terra está falando, ela nos diz que não temos mais tempo”, declarou Txai, ressaltando ainda os homicídios ligados a conflitos com grileiros e garimpeiros. “Enquanto você fecha os olhos para a realidade, o defensor da terra Ari Uru-eu-wau-wau, meu amigo desde criança, foi assassinado por proteger a floresta”, lamentou.

Leia também: ‘A terra está falando, não temos mais tempo’, declara ativista indígena na COP26

A força do discurso dos povos originários tem incomodado o governo federal. Segundo Txai, após a apresentação feita na abertura da COP26, ela sofreu intimidação. “Enquanto eu estava dando algumas entrevistas, chegou um representante do governo brasileiro meio que tentando me intimidar, pedindo para que eu não falasse tão mal do Brasil, porque eles estavam tentando fazer alguma coisa [traçar ações de preservação ambiental] e eu falei que a gente [representantes indígenas] também estava lá para fazer isso”, disse a jovem, sem identificar o autor da ameaça.

Outros nomes que estão mostrando ao mundo o descaso ambiental e com os indígenas, são o da coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e primeira deputada indígena eleita no Brasil, Joênia Wapichana, da ativista Samela Sateré-Mawé, e do presidente e vice-presidente da HAY, Davi Kopenawa e Dário Kopenawa, respectivamente.

Na COP26, Joênia Wapichana também cobra, dos países, ações concretas para a redução do desmatamento, principalmente na Amazônia. Ela lembrou, em uma publicação no Instagram, do Compromisso Global do Metano firmado nessa terça-feira, 2, na Conferência. O esforço global visa reduzir em 30% as emissões de metano até 2030, em relação aos níveis de 2020.

“Já ouvi certas críticas relacionadas a esse compromisso porque não teve nada de novo, eles só falaram o que cada País tem que cumprir de ações e enfrentamento, mas não há uma fiscalização, um monitoramento, uma plataforma que alguém consiga realmente ver quais são os avanços desses compromissos que estão sendo feitos. Precisamos de financiamento para esses países que mais poluem, para manter a floresta em pé, principalmente na Amazônia”, disse Joênia.

A ativista e indígena Samela Sateré-Mawé também está na COP26 para falar sobre mudanças climáticas, aquecimento global e justiça climática. “Estamos em uma delegação de cerca de 40 pessoas porque tivemos de sair do nosso território, nossa terra indígena, no Brasil, para falar para os grandes líderes globais sobre o que as ações deles estão causando no nosso território e quais sãos os impactos que sofremos no dia a dia por conta das ações dessas grandes fábricas e dessas pessoas que têm apenas a intenção de lucrar”, destaca.

Samela Sateré-Mawé na COP26. (Reprodução/Instagram)

Yanomamis também representam

Os coordenadores da HAY estão em Paris, onde deram entrevistas a jornais “falando sobre o desmatamento na Amazônia” e o “desgoverno Bolsonaro”, lembrando que “cada vez mais está crescendo a violação dos direitos dos povos originários.

(Reprodução/Twitter)

Veja o documento da Hutukara Associação Yanomami (HAY) na íntegra: